sábado, 25 de fevereiro de 2012

O sonho português

"O aterro em 1881: no cais de Lisboa", óleo de Alfredo Keil (1850-1907)

O que somos?

Há mais de 800 anos, houve aquela altercação entre o filho Afonso Henriques e a mãe, Dona Tarasia, ou Tareja, hoje Dona Teresa, filha bastarda de Afonso VI, de Leão.

E fez-se o reino de Portugal.

Se reparares, as três dinastias portuguesas, a primeira, afonsina, a segunda de Avis, a quarta, de Bragança (a espanhola não importa agora), nascem de bastardias: D. Afonso Henriques, está dito; D. João I, vem dos amores de D. Pedro com Teresa Lourença; a casa de Bragança nasce com um filho adulterino de D. João I.

Ou seja: este reino começou e recomeçou, sempre, enraizado no povo.

E que povo é esse?

O de loucos e suicidas, no dizer de Miguel de Unamuno? Aquele cuja gente que “de seu natural, era inclinada ao bem; e, dos males que havia, os mais procediam de falta de mestres, poucos de malícia”, como terá observado Bartolomeu dos Mártires, segundo Frei Luís de Sousa?

Este povo de emigrantes forçados, desde o dia em a primeira caravela levantou âncora, caminho ao desconhecido?

Povo espalhado pelas sete partidas, presente em cada canto do mundo, até em Alexandria, onde, no Hotel das Pirâmides, o Raposão, de Eça, foi encontrar o Alpedrinha, moço de bagagens, sedento de novas da pátria e a perguntar: “E então por lá, e então por lá?”

Povo que, agora inquire, jovem e maduro, ou velho no sono sobressaltado: “Há lugar para mim em Inglaterra? Na Alemanha? Na Austrália?...”

...Até mesmo no sítio onde o Judas perdeu as botas, digo eu, porque parece que todo o sítio servirá de salvação ao português, aqui condenado ao desemprego e à fome.

De profundis clamavi...

Clamamos todos.

Bramamos todos.

Desde o Martim Moniz fatalmente entalado na porta do Castelo dos Mouros, em Lisboa, ao Alpedrinha de Alexandria, passando pelos afogados da história trágico-marítima até à rapariga da mala de cartão, aos heróis anónimos dos bairros da lata de Paris, às centenas de milhares, já milhões, que se vão, em busca de trabalho e comida –todos os dias.

Reclamamos respeito e justiça.

E isso não surpreende ninguém que fale verdade.

António Nobre queixava-se: “Que desgraça nascer em Portugal!”

Mas, nessa outra bíblia portuguesa, “Só”, Nobre não chorava senão a pátria, a sangrar a dor de alma traída...

Por quem? Porquê?

Se os loucos e os suicidas se cruzam pelas ruas, topamos, sobretudo, os olhos dos poetas.

E os poetas sonham.

Que é feito do sonho português?

4 comentários:

  1. Guida, fico contente... e triste porque também tu constataste o crime organizado que dá cabo de nós... há séculos!

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  2. Manuel Poppe,
    Não sei por onde começar. Talvez pelo fim que é a parte do texto que gosto mais.
    O sonho é a eterna saudade e nostalgia... sempre foi assim.
    Quem me dera partir.
    Chorar, choramos todos os dias, talvez Teixeira de Pascoaes tenha a resposta.
    Bom fim-de-semana!

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  3. Ana,

    sonhar=utopia=exigência=ambição=coragem.

    Eis o que nos falta cada vez mais.

    Estamos a ser espoliados e limitamo-nos a virar as costas ou a suportar ou a chorar.

    Toda a Europa e especialmente o capitalismo financeiro atravessa um momento histórico e de viragem.

    Vamos a ver o que daqui sai.

    E como se portam os portugueses.

    Um grande abraço.

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