quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

No centenário da morte de Manuel Laranjeira







Manuel Laranjeira (17/08/1877-22/02/1912), na primeira foto, uma obra de Orlando da Silva, indispensável 

Étienne de La Boétie, amigo dilecto de Michel de Montaigne, aquele de quem este dizia que o fora “parce que c´était lui, parce que c’était moi” e que tais coisas, encontros e empatias, as deveriam ter de preparar três séculos; La Boétie, o autor do revolucionário “Le discours de la servitude volontaire”, a entrar na agonia, confiava a Montaigne, que o amparava:

“Não vivi já eu o bastante? Estou prestes a entrar nos meus trinta e seis anos. Deus fez-me a graça de que tudo o que passei até esta hora da minha vida fosse cheio de saúde e felicidade, e dada a inconstância das coisas humanas não poderia continuar assim. A partir de agora, era tempo de me dedicar aos negócios, de ter experiências desagradáveis, por exemplo os incómodos da velhice dos quais me livro assim. E é também verdade que vivi até agora com mais sinceridade e menos malícia do que viveria se, porventura, Deus me deixasse viver até que o cuidado de enriquecer e de me acomodar houvessem tomado conta de mim.”

Cita-o Montaigne, em carta a seu pai.

É, agora, de uma carta de Laranjeira a Martinez Sierra, datada de 2 de Outubro de 1908, que transcrevo:

“Eu sei, desanimado amigo: a vida, como o Quijote, é um livro alegre que nos deixa tristes; e, como o Quijote, o livro da nossa vida também tem uma página sobretudo trágica, sobretudo amarga –a última, aquela em que renunciamos a loucuras, e cavalarias, para morrer cuerdos, como o bom Alonso Quijano. Chegaria para V., poeta de La Casa de la Primavera, essa hora trágica em que Alonso Quijano renega D. Quijote? Essa hora dolorosa em que o homem, como o cavaleiro desiludido e cuerdo, assassina dentro de si, do seu espírito, o D. Quijote ilusionado de loucuras ideais?”

E essa desistência era insuportável para Manuel Laranjeira, tal qual viria a ser –ele o insinua- para Étienne de La Boétie, se não morresse.

E Laranjeira conta, no Diário:

“Quinta, 27 de Agosto [1908]

Dia infinito de tédio. Encontro um louco a quem chamam o “filósofo” que se mete a conversar comigo: a dizer disparates, coisas loucas e coisas acertadas, como certos bobos da antiguidade, à mercê das suas ideias loucas, flutuantes. Fala da pequenês das grandezas humanas e voltando-se para mim com os olhos fixos:
-É que -saiba-o Excelência- o homem é um animal muito triste...
Muito triste!”

E, no ano seguinte, a 19 de Fevereiro, julga constatar ainda pior:

“Esta campanha de sanidade moral tem-me revelado um dos aspectos mais curiosos da alma portuguesa –o da sua dissolução. Creio que isto é uma raça perdida. Começo a crer que biologicamente a nossa decadência degenerativa é manifesta. Não se trata apenas duma desagregação da alma colectiva, trata-se duma dissolução mais funda, mais íntima, passada na alma de cada um. Dá vontade de morrer –de vergonha.”

Tomam-no a tristeza, a angústia e o desespero.

Estava farto de ser incompreendido e desvalorizado.

Sentia-se encostado a uma parede de betão que não cedia.

O grande lutador, o grande humanista, estava farto da traição dos homens: a traição aos ideais e a si próprios.

A 1ª República começara já a desiludi-lo, as gentes a cederem às sereias do fácil triunfo, a hidra da corrupção a lançar os tentáculos.

O “Reino Cadaveroso”, descrito por Ribeiro Sanches no séc. XVIII, assente e no triunfo da anti-cultura, da podridão e da resignação, que, em 1851, o governo de Saldanha consagrara, sufocando o idealismo setembrista, reinstalava-se, engordava, devorava o povo malfadado.    

Laranjeira ia a caminho dos 34 anos e não queria acabar como Alonso Quijano: renegado.

E, no dia 22 de Fevereiro de 1912, Manuel Laranjeira deu um tiro na cabeça.

Deixou obra. É um dos escritores mais complexos do nosso século XX e, como diria o seu grande amigo Miguel de Unamuno, “un Hombre” –um homem exemplar.

Hoje, nós assistimos à maior crise, à mais grave desde do 25 de Abril.

Assistimos ao monstruoso crescimento da hidra e ao galopante multiplicar dos vendidos à corrupção.

Assistimos ao repor nos altares o bezerro de oiro.

Assistimos à morte da vida-viva.

O que iremos fazer?

Apodrecer?

Confirmar a dissolução da nossa alma, que assustou Manuel Laranjeira?





7 comentários:

  1. Bom dia,
    estou a ler e a gostar muito de Manuel Laranjeira.
    Um abraço

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  2. Isabel, o "Diário" e as "Cartas" são apaixonantes. Que anda a ler? Um abraço.

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  3. Tenho cá "Obras de Manuel Laranjeira", da Asa, dois volumes, (dois volumes muito bonitos, quem me dera tê-los,mas não há à venda, e nem são muito antigos, são de 1993), trouxe-os da biblioteca municipal. Já li as "Cartas", ando a ler o "Diário" (já li quase todo) e os poemas.Também comprei na Lumiére "Prosas Perdidas".
    Comecei a ler depois de ler o seu "A Tragédia de Manuel Laranjeira",fiquei com vontade de conhecer alguma coisa dele.Gostei do que já li.
    Um beijinho grande

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  4. Para alguma coisa serviu a minha peça... Isabel, corri os nossos jornais e não encontrei uma referência ao centenário do Laranjeira. Ao que chegou a nossa "comunicação social"!

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  5. É pena.
    Vou-lhe "roubando" aqui os autores e vou colocando coisas no meu blogue. Já lhe disse, que tenho conhecido aqui autores que pouco ou nada conhecia e li e gostei. Manuel Laranjeira é um deles. Antes de devolver os livros à biblioteca, ainda vou colocar no blogue mais uns poemas.
    Obrigada.

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  6. Acho que já lhe disse, mas se não disse, digo agora, gostei muito da sua peça. e daí a vontade de ler algo daquela interessante personagem.
    Um beijinho

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  7. Isabel, muito obrigado.Sabe que uma das minhas metas é lembrar os autores que o canibalismo literato enterra e a incultura em curso ignora. Fico muito contente por saber que alguma coisa lhe dei.

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