
Pela mão de Luís Amaro, chegou-me, há já algum tempo, a fotocópia deste poema de Manuel da Fonseca, publicado nos ‘Cadernos da Juventude’, nº1, Coimbra, 1937 (reeditado, em 1997, pela Câmara Municipal de Coimbra).
Não fora a generosidade sem limites, a que nos habituou o poeta discreto e admirável, singular, que é Luís Amaro, capaz de admirar e de partilhar a imensa Cultura acumulada,
Amigo, entre os amigos,
nunca eu teria acesso a esses versos esquecidos do autor ‘Rosa dos Ventos’, seu primeiro livro de poesia, datado de 1940, e que não compreende ‘Santas de Sofrer’.
Talvez nem tu os viesses a ler, amigo, e para que tal não aconteça, aqui o transcrevo, respeitando a ortografia original:
Amigo, entre os amigos,
nunca eu teria acesso a esses versos esquecidos do autor ‘Rosa dos Ventos’, seu primeiro livro de poesia, datado de 1940, e que não compreende ‘Santas de Sofrer’.
Talvez nem tu os viesses a ler, amigo, e para que tal não aconteça, aqui o transcrevo, respeitando a ortografia original:
SANTAS DE SOFRER
Foi no teu corpo de lama,
a purgar de chaga em chaga,
no acaso duma noite e duma cama
que eu matei o meu desejo.
Um desejo que se paga
em silêncio, sem um beijo
e sem amor.
Foi só por vício.
Eu por direito de compra,
como honesto cidadão
dentro da Lei!
Tu por ofício.
E ambos sem coração.
E agora
ao recordar-me chorei
da tragédia dessa hora
que vive dentro de mim.
Ai, que tristíssima pena
da tua carne morena
cheia de puz,
e do teu olhar de santa.
Que pesada a tua cruz,
que dolorosa vida,
a tua, e a de tuas irmãs,
vendendo o corpo a quem passa,
no mercado da desgraça
entre gentes cristãs!...
Ó santa de sofrer
sempre a vender prazer
a mil amantes;
ó santa de corpo macerado
pelos inconfessáveis instantes
da venda no mercado;
ó santa que, na amargura
sem fim da tua vida, inda sorris,
-tu que já foste pura
e eras feliz-;
ó santa da alma aflita,
eu que nunca te conheci
e só vi
naquela hora maldita,
em nome de todos que te puzeram
essa negra cruz,
e que te compraram
e te venderam
e macularam
e encheram der puz;
ó santa de mágua e podridão,
em nome dos homens:
-Perdão!
a purgar de chaga em chaga,
no acaso duma noite e duma cama
que eu matei o meu desejo.
Um desejo que se paga
em silêncio, sem um beijo
e sem amor.
Foi só por vício.
Eu por direito de compra,
como honesto cidadão
dentro da Lei!
Tu por ofício.
E ambos sem coração.
E agora
ao recordar-me chorei
da tragédia dessa hora
que vive dentro de mim.
Ai, que tristíssima pena
da tua carne morena
cheia de puz,
e do teu olhar de santa.
Que pesada a tua cruz,
que dolorosa vida,
a tua, e a de tuas irmãs,
vendendo o corpo a quem passa,
no mercado da desgraça
entre gentes cristãs!...
Ó santa de sofrer
sempre a vender prazer
a mil amantes;
ó santa de corpo macerado
pelos inconfessáveis instantes
da venda no mercado;
ó santa que, na amargura
sem fim da tua vida, inda sorris,
-tu que já foste pura
e eras feliz-;
ó santa da alma aflita,
eu que nunca te conheci
e só vi
naquela hora maldita,
em nome de todos que te puzeram
essa negra cruz,
e que te compraram
e te venderam
e macularam
e encheram der puz;
ó santa de mágua e podridão,
em nome dos homens:
-Perdão!
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